Os 13 fatores de risco psicossocial do MTE explicados

fatores de risco psicossocial NR-1 — os 13 reconhecidos pelo MTE para o PGR

Em resumo:

  • O Ministério do Trabalho e Emprego reconhece 13 fatores de risco psicossocial que devem ser avaliados no PGR de toda empresa com funcionários registrados, conforme a NR-1 atualizada.
  • Os fatores cobrem tanto as condições organizacionais (ritmo, jornada, autonomia) quanto as relações interpessoais (assédio, suporte, conflitos) e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.
  • Identificar quais fatores estão presentes na sua empresa é o primeiro passo obrigatório — e para isso é necessária a participação ativa dos trabalhadores, não apenas a percepção da gestão.
  • Cada fator identificado como relevante precisa de medidas de controle documentadas, com responsável e prazo definidos no plano de ação do PGR.

Quando a NR-1 passou a exigir o mapeamento de riscos psicossociais no PGR, muitas empresas se depararam com uma dificuldade concreta: o que exatamente precisa ser avaliado? Ao contrário de riscos físicos — ruído, temperatura, agentes químicos — os riscos psicossociais não são mensuráveis com equipamentos. Eles existem nas relações, nas dinâmicas de trabalho, na forma como as tarefas são organizadas e na cultura da empresa.

Para dar objetividade a esse levantamento, o Ministério do Trabalho e Emprego estabeleceu 13 fatores de risco psicossocial que devem ser considerados no inventário do PGR. Eles funcionam como um mapa: não determinam que todos os fatores estarão presentes em toda empresa, mas garantem que nenhum aspecto relevante seja ignorado na avaliação.

Este artigo explica cada um dos 13 fatores, como eles se manifestam no dia a dia das empresas e o que fazer quando são identificados — inclusive como conectá-los ao programa de adequação à NR-1 da sua organização.

Por que o MTE definiu uma lista de fatores psicossociais

A decisão de estabelecer uma lista específica não foi arbitrária. Ela reflete décadas de pesquisa em saúde ocupacional — especialmente os modelos internacionais de referência, como o Modelo Demanda-Controle de Karasek, o Modelo Esforço-Recompensa de Siegrist e o framework da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para riscos psicossociais.

A padronização tem um objetivo prático: permitir que empresas de diferentes setores e tamanhos utilizem o mesmo conjunto de categorias como referência, facilitando o levantamento, a comparação ao longo do tempo e a fiscalização pelo MTE. Sem uma lista comum, cada empresa definiria seus próprios critérios — e a norma perderia efetividade.

O que a lista não determina é a presença ou a gravidade de cada fator em cada empresa. Isso só emerge quando o levantamento é conduzido de forma participativa, com os trabalhadores de cada setor.

Os 13 fatores de risco psicossocial: explicação detalhada

1. Ritmo de trabalho excessivo e pressão por produtividade

Ocorre quando as demandas de volume ou velocidade superam de forma persistente a capacidade do trabalhador de executar suas tarefas com qualidade e sem sobrecarga. Não se trata de períodos pontuais de alta demanda — todo trabalho tem picos. O risco emerge quando esse ritmo se torna a norma e o trabalhador não tem tempo para recuperação entre os ciclos de esforço.

Sinais práticos: horas extras frequentes e não remuneradas, metas sistematicamente inatingíveis, pressão constante para “fazer mais com menos”.

2. Jornadas prolongadas e trabalho em turnos desfavoráveis

Jornadas acima de 8 horas diárias de forma habitual, trabalho noturno, turnos rotativos e regimes de sobreaviso constante comprometem o sono, o convívio familiar e a capacidade de recuperação física e mental. O fator é especialmente relevante em setores como saúde, segurança, transporte e varejo.

Sinais práticos: índices elevados de falta por cansaço, reclamações sobre dificuldade de descanso, trabalhadores que “nunca desligam”.

3. Ambiguidade e conflito de papel (falta de clareza nas funções)

Quando o trabalhador não tem clareza sobre o que se espera dele, recebe ordens contraditórias de diferentes superiores ou precisa executar tarefas que considera incompatíveis com sua função, há conflito de papel. Esse fator é especialmente comum em empresas em crescimento rápido, onde as estruturas organizacionais ainda não acompanharam a expansão.

Sinais práticos: retrabalho frequente, conflitos entre setores sobre responsabilidades, alta rotatividade em funções específicas.

4. Conflito entre exigências do trabalho e valores pessoais

Ocorre quando o trabalhador é sistematicamente obrigado a agir de forma contrária aos seus valores — éticos, morais ou profissionais. Vendedores pressionados a praticar vendas abusivas, funcionários orientados a omitir informações relevantes de clientes ou colaboradores forçados a descumprir normas de segurança são exemplos típicos.

Sinais práticos: pedidos de desligamento com justificativa de “não me identificar com a cultura”, resistência passiva a determinadas orientações.

5. Baixo controle sobre o próprio trabalho (falta de autonomia)

A autonomia é um dos preditores mais robustos de saúde mental no trabalho. Quando o trabalhador não tem nenhuma margem de decisão sobre como, quando ou em que ordem executa suas tarefas, a sensação de controle desaparece — e com ela, parte da motivação e da resiliência. Esse fator não significa que toda função precisa ter alta autonomia, mas que o grau de controle deve ser compatível com as responsabilidades exigidas.

Sinais práticos: microgestão excessiva, ausência de espaço para sugestões, processos ultra-rígidos sem margem de adaptação.

6. Isolamento social ou físico no ambiente de trabalho

O trabalho remoto, o trabalho em campo, as funções de turno em que há pouca interação com colegas e os ambientes de trabalho que desincentivam a comunicação informal são contextos onde o isolamento pode se instalar. O isolamento prolongado sem suporte social adequado é um fator de risco relevante para ansiedade e depressão.

Sinais práticos: trabalhadores remotos sem rituais de conexão com a equipe, funções solitárias sem check-ins regulares, equipes geograficamente dispersas sem suporte estruturado.

7. Violência, assédio moral e assédio sexual

Este é um dos fatores com maior impacto na saúde mental e no passivo trabalhista das empresas. O assédio moral — exposição repetida a humilhações, isolamento deliberado, atribuição de tarefas degradantes — e o assédio sexual precisam ter canais claros de denúncia, protocolos de apuração e cultura organizacional que não normalize esses comportamentos.

Sinais práticos: ausência de canal de denúncia, lideranças que “brincam” às custas de subordinados, queixas informais que nunca chegam ao RH.

8. Relacionamentos interpessoais deteriorados

Diferente do assédio, este fator abrange o clima geral de convivência entre colegas e entre equipes. Ambientes marcados por fofoca estrutural, competição desleal, falta de cooperação e conflitos não resolvidos criam um estressor crônico que afeta a produtividade e a saúde de todos os envolvidos.

Sinais práticos: conflitos frequentes entre setores, queixas sobre “panelinhas”, reuniões improdutivas marcadas por tensão.

9. Falta de suporte social de superiores e colegas

Suporte social no trabalho é a percepção de que, diante de uma dificuldade, há alguém — líder ou colega — disponível para ajudar. Quando esse suporte é ausente, o trabalhador enfrenta os desafios do trabalho sozinho, o que amplia significativamente o impacto dos demais fatores de risco. Lideranças que “cobram mas não apoiam” são o símbolo desse fator.

Sinais práticos: alta taxa de afastamento em equipes específicas, avaliações de clima com notas baixas para “meu gestor me apoia”.

10. Insegurança no emprego e incerteza sobre o futuro

A ameaça — real ou percebida — de demissão, downsizing, terceirização ou mudanças organizacionais drásticas cria um estado de alerta crônico que compromete a concentração, o sono e o bem-estar. Em ambientes onde a comunicação institucional é precária, os rumores preenchem o vácuo de informação — e amplificam a insegurança.

Sinais práticos: períodos de reestruturação sem comunicação clara, alta de absenteísmo após anúncios de mudanças, queda de engajamento em momentos de incerteza.

11. Conflito entre trabalho e vida pessoal (desequilíbrio vida-trabalho)

Quando as demandas do trabalho invadem sistematicamente o tempo e a energia reservados à vida pessoal — família, saúde, lazer, descanso — o trabalhador entra em um estado de depleção progressiva. O fator se agravou com a digitalização e o trabalho remoto, que apagaram as fronteiras físicas entre os dois mundos.

Sinais práticos: cultura de resposta imediata fora do horário, reuniões frequentes no horário de almoço, ausência de política clara sobre disponibilidade fora do expediente.

12. Exposição a situações traumáticas, violência de terceiros ou morte

Trabalhadores de saúde, segurança pública, bombeiros, profissionais que lidam com populações em vulnerabilidade e mesmo colaboradores de atendimento ao cliente em contextos de alta conflitividade estão expostos a eventos potencialmente traumáticos de forma recorrente. Esse fator exige atenção especial porque os efeitos podem não ser imediatos — e muitas vezes são minimizados pelos próprios trabalhadores.

Sinais práticos: ausência de suporte psicológico para equipes de atendimento de crise, alta rotatividade em funções de alta exposição emocional.

13. Trabalho emocional excessivo

O trabalho emocional é a gestão deliberada das próprias emoções para atender às expectativas do trabalho — sorrir quando está frustrado, manter a calma diante de clientes agressivos, demonstrar empatia mesmo quando esgotado. Profissionais de saúde, educação, atendimento ao cliente e vendas são os mais expostos. Quando essa demanda é excessiva e contínua, resulta em esgotamento emocional — o núcleo do burnout.

Sinais práticos: alta de afastamentos por burnout em equipes de atendimento, relatos de “cansaço de ter que fingir que estou bem”.

Como usar os 13 fatores no levantamento do PGR

A lista de 13 fatores funciona como um roteiro de investigação, não como uma checklist de conformidade. O processo correto envolve três etapas:

  1. Mapeamento por setor: para cada área da empresa, identifique quais dos 13 fatores têm potencial de exposição, considerando a natureza das tarefas, a estrutura hierárquica e as condições físicas do trabalho.
  2. Validação com os trabalhadores: aplique questionários validados ou conduza entrevistas/grupos focais para confirmar quais fatores são efetivamente percebidos pelos colaboradores como estressores relevantes. A percepção dos trabalhadores é dado primário — não pode ser substituída pela avaliação da gestão.
  3. Classificação e priorização: avalie cada fator identificado pela combinação de probabilidade de ocorrência e severidade do impacto. Fatores com alta probabilidade e alto impacto entram no plano de ação imediato; os demais compõem o plano de médio prazo.

O resultado desse processo alimenta diretamente o inventário de riscos do PGR e o plano de ação subsequente. Sem essa base, qualquer documento elaborado para atender à NR-1 será superficial — e vulnerável à fiscalização.

Quais setores concentram mais fatores de risco psicossocial

Embora todos os ambientes de trabalho precisem passar pelo levantamento, alguns setores apresentam concentração historicamente maior de fatores psicossociais:

Setor Fatores mais frequentes
Saúde e cuidados Trabalho emocional excessivo, jornadas prolongadas, exposição a situações traumáticas
Varejo e atendimento ao cliente Ritmo excessivo, trabalho emocional, baixa autonomia
Indústria e produção Jornadas em turno, ritmo excessivo, baixo controle sobre o trabalho
Tecnologia e startups Conflito vida-trabalho, insegurança, ambiguidade de papel
Educação Trabalho emocional, falta de suporte, conflito de valores
Financeiro e seguros Ritmo excessivo, pressão por metas, insegurança no emprego

Essa concentração não exime os demais setores da avaliação — significa que nesses ambientes o levantamento exige maior atenção e, provavelmente, medidas de controle mais robustas.

Perguntas frequentes sobre os fatores psicossociais na NR-1

Todos os 13 fatores precisam constar no PGR mesmo que não sejam relevantes?

Não. O PGR precisa documentar quais fatores foram avaliados, com qual metodologia, e quais foram identificados como relevantes para aquela empresa. Fatores descartados após a avaliação devem aparecer no inventário com a justificativa de que não foram identificados como risco significativo — isso demonstra que o processo foi conduzido de forma completa.

Qual é a diferença entre risco psicossocial e doença mental no trabalho?

O risco psicossocial é o fator de exposição — algo presente no ambiente de trabalho que pode comprometer a saúde mental do trabalhador. A doença mental (como burnout, ansiedade ou depressão) é o desfecho possível da exposição prolongada sem controles adequados. A NR-1 regula a gestão do risco, não o tratamento da doença — que é responsabilidade da medicina ocupacional e do sistema de saúde.

Empresa pequena, sem RH estruturado, consegue fazer esse levantamento?

Sim. O levantamento pode ser conduzido pelo próprio gestor com apoio de questionários validados e publicamente disponíveis, como o ISTAS21. O importante é documentar o processo, registrar a participação dos trabalhadores e formalizar as conclusões no PGR. Para empresas que não têm tempo ou expertise interna, o apoio de um consultor especializado costuma ser a solução mais eficiente — o workshop in company que oferecemos é estruturado justamente para esse perfil de empresa.

Como saber se o plano de ação do PGR está adequado para os riscos identificados?

Um plano de ação adequado tem, para cada risco prioritário identificado: uma medida de controle concreta (não genérica como “melhorar o clima”), um responsável nominado pela implementação e um prazo definido. Medidas vagas como “incentivar o equilíbrio vida-trabalho” sem ação específica, responsável e prazo não atendem ao requisito formal da norma.

 

Sobre a autora

Melissa Poletto é mentora de liderança e consultora empresarial com 23 anos de atuação, especialista em mentoria de liderança, consultoria empresarial e desenvolvimento de equipes. Atua a partir de Bento Gonçalves – RS atendendo líderes, empresários e organizações em todo o Brasil em processos de transformação que exigem método, experiência e presença.

Dedica-se ao desenvolvimento de lideranças em ambientes corporativos e empresas familiares, conduzindo programas in company de adequação à NR-1 e gestão de riscos psicossociais. Conheça a trajetória da mentora de liderança Melissa Poletto.

Melissa Poletto

Melissa Poletto, Mentora de Liderança e Consultora Empresarial

De engenheira à mentora